Casa da Árvore

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03 jul

Biblioteca forma booktubers e atrai jovens leitores

Talvez seja difícil de imaginar, mas existe uma biblioteca pública brasileira onde câmeras, microfones, refletores, cenários e editores de vídeo dividem com os livros a atenção dos jovens leitores. É a Biblioteca Municipal Centenário, em Poços de Caldas, cidade que fica no sul de Minas Gerais e vem aproveitando do fenômeno cultural dos booktubers para formar jovens influenciadores de leitura e atrair a atenção dessa geração para a literatura.  
 
 
Para quem nunca ouviu falar, booktuber é o termo usado para denominar os youtubers (criadores de conteúdo para o YouTube) que produzem vídeos sobre livros. Com estes vídeos eles compartilham suas opiniões, indicações e curiosidades sobre as obras lidas. Desde o ano passado a biblioteca integrou a produção de vídeos literário em sua rotina, através do LAB Booktuber. A atividade é uma das estratégias para formação de uma rede de jovens influenciadores de leitura proposta pelo BiblioArte LAB, um laboratório comunitário de inovação em formação de leitores.
 
 
Assim que foram abertas as primeiras vagas, mais de 120 jovens e adolescentes de escolas públicas de Poços de Caldas se inscreveram.Um reflexo do quanto essa faixa etária é vidrada por conteúdos em vídeo e, tendo o smartphone como ferramenta, anseia por criar e mostrar ao mundo seus próprios materiais audiovisuais. Iniciadas as aulas, vem a consciência de que é preciso ser um tanto quanto “profissional” para se sobressair em meio a tantos concorrentes.
 
 
Nicolle de Oliveira tem 13 anos e conhece bem esse universo, pois é através do Youtube e outras redes sociais que ela vem ampliando suas experiências literárias. Para ela, boa parte da popularidade dessas celebridades literárias da internet vem da linguagem: “Eles são autênticos e falam conosco de igual para igual. Quanto mais espontâneo for o conteúdo e a roupagem escolhidos, mais chances tem de conquistar seguidores em seu canal”.
 
 
Nicolle faz parte da primeira turma de booktubers formados no BiblioArte LAB, e hoje é uma das atrações no canal do Youtube da revista eletrônica Página 9 3/4 (www.youtube.com/c/pagina934), produzindo vídeos sua maior paixão, as fanfics (ficções escritas por fãs, adaptadas ou recriadas a partir de um livro, uma série ou outras narrativas). Seu objetivo? Alcançar ao menos parte da audiência que possuem referências nesse segmento, a exemplo dos canais Mundo Paralelo (mais de 264 mil inscritos no Youtube) ou Cabine Literária (146 mil inscritos).
 
 
O itinerário de aprendizagem desses jovens tem sido orientado pela equipe da ONG Casa da Árvore, entidade realizadora do projeto BiblioArte LAB. Os encontros são mediados pela produtora e estudante de publicidade Letícia Deparolis, e a psicóloga Priscila Alexandre, que hoje dedica-se por completo ao blog e canal “As meninas que leem livros”. Sua experiência na concepção, produção e edição de vídeos está sendo hoje compartilhada com os adolescentes do LAB Booktuber.
 
 
“Está sendo uma experiência engrandecedora, de troca de conhecimentos. Os adolescentes têm toda uma bagagem de experiências particulares de leitura para trazer durante as discussões. Eu estudo para transformar esse conhecimento em algo que eles possam utilizar durante as oficinas e, posteriormente, reproduzirem por conta própria”, relata Priscila, ao descrever a experiência de ensinar como compartilhar suas experiências de leitura nas redes sociais.
 
 
Mas para ser um booktuber não basta só ligar a câmera e deixar rolar. Pesquisar com carinho temas de interesse, elaborar roteiros para as gravações e dominar as técnicas de edição no computador são passos indispensáveis. “Um dos principais conceitos que eles precisam aprender é o da resenha, que vai muito além de uma pura e simples opinião. É necessário transformar o que eles já conhecem em algo crítico, para que seja possível a eles analisarem o conteúdo que recebem. Em pouco tempo, já percebi que eles passaram a refletir melhor sobre aquilo que consomem”, explica Priscila.
 
 
 
Inovações do mercado às políticas públicas
 
 
A experiência que vem sendo desenvolvida na Biblioteca Municipal Centenário aponta para novas tendências. Para a Cleide Fernandes, diretora do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas Municipais de Minas Gerais,“Atualmente, as bibliotecas públicas estão passando por grandes transformações. A comunidade está exigindo que a biblioteca passe a ser vanguarda na sua área e a energia dos jovens é fundamental nesse processo. A participação deles na programação, dando ideias e organizando atividades, tem sido uma marca desse novo papel”, confirma Cleide Fernandes,.
 
 
“A biblioteca é um lugar de encontros: do leitor com os livros, do leitor com o bibliotecário e do leitor com outros leitores e demais mediadores de leitura. Um lugar de encontros e de participação e, nesse sentido, se a linguagem que os jovens falam está relacionada com as novas tecnologias, é nessa linguagem que os bibliotecários devem falar”, complementa Cleide.
 
 
Muito antes das políticas públicas, o mercado editorial já havia aberto os olhos para esse nicho, seja publicando obras escritas por quem se projetou como booktuber, seja pautando os lançamentos pelos seus gostos. A editora Flávia Lago trabalha na Plataforma21, o selo jovem da V&R Editoras, e comenta que esses influenciadores digitais servem de termômetro para o mercado editorial: “As preferências dos booktubers podem servir de parâmetro para as escolhas dos gêneros e temas a serem discutidos, bem como nas apostas em novas categorias. Editoras não fazem grandes pesquisas de mercado. Sendo assim, resenhas em blogs ou vídeos passaram a ser o ‘termômetro’ para muitas delas”.
 
 
Ainda segundo Flávia, diante de um lançamento, principalmente no segmento de young adults (ou ficção infanto-juvenil), uma opção mais proveitosa para uma estratégia de divulgação e marketing é focar-se nesses influenciadores digitais, ao invés de apostar nos canais tradicionais, caso dos jornais e revistas de grande circulação.
 
 
Sobre o BiblioArte LAB
 
Assim como o universo dos booktubers, outras dimensões da cultura digital estão servido de base para experiências de inovação em práticas de leitura e formação de leitores através do BiblioArte LAB (www.facebook.com/biblioartelab). O projeto é uma tecnologia social para ressignificação de bibliotecas públicas, escolares e comunitárias desenvolvida pela ONG Casa da Árvore (www.casadaarvore.art.br). Durante o ano o laboratório abriga atividades formativas gratuitas, como LAB Hiperespaços de Leitura, LAB GIFs Literários, LAB Robótica Poética e LAB O Viral da História.
 
 
“Nosso objetivo aqui é atrair jovens leitores e estimular o protagonismo e o desenvolvimento de habilidades artísticas, tecnológicas e de empreendedorismo criativo para a formação de uma rede de influenciadores de leitura”, destaca Aluísio Cavalcante, coordenador geral do projeto. Dentro do BiblioArte LAB estes adolescentes também desenvolvem seus empreendimentos culturais como a revista literária Página 9 3/4 ( www.revistapagina934.art.br ), a intervenção urbana Territórios Literários (www.territóriosliterários.net) e o aplicativo de leitura LEIA-ME (em breve na Google Store). Os resultados e o impacto social da iniciativa renderam ao projeto o Prêmio A Rede.Educa (2016). Até o momento mais de 450 jovens já foram beneficiados.   
 



DADOS INSTITUCIONAIS

Razão social: Associação Casa da Árvore
CNPJ: 09.169.589/0001-20
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